O Cãozinho que Invadiu Meu Quintal
- ciclopoetica
- há 3 dias
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Na verdade, o cãozinho invadiu meu coração.
É sobre isso que fala esta crônica: sobre afeto, acolhimento, amor de pet, boa vizinhança e sobre aquelas situações aparentemente simples que chegam para nos mostrar que o coração pode ser muito mais quentinho do que imaginávamos.
Então... Era uma vez e não era uma vez.
Outro dia me aconteceu algo inédito. Misteriosamente inexplicável. Sabe aquela situação inusitada, algo que jamais imaginaria?
Chegando em casa, coloquei o carro na garagem e, antes de fechar o portão, ele entrou pra dentro e pulou no meu colo.
Há muito tempo não era recebida assim, com tanto calor e alegria.
A minha impressão é de que ele estava ali havia algum tempo, esperando que eu abrisse o portão, como se soubesse exatamente a hora em que eu chegaria.
Tudo bem que minha porta era a única aberta naquela primeira hora da manhã.
Então, antes que eu fechasse o portão, ele entrou sem pedir licença. Abanando o rabo, pulou no meu colo como se fôssemos velhos amigos.
Depois correu para o quintal, e eu fiquei ali sem entender o que estava acontecendo. Sentindo uma alegria boba, gratuita, com o coração quentinho.
Estava meio abobada, tipo pessoa apaixonada, e de repente ele passou entre minhas pernas e correu para a rua, latindo e olhando para trás, como se me chamasse para ir junto…
Naquele horário, muitos carros transitavam pela avenida. Ainda bem que eu sei correr, porque tive de correr muito atrás daquele cãezinho que não era meu, mas que, de alguma forma, era. Custei a pegar a criatura canina. Os porteiros do parque viram toda a cena. Quando finalmente consegui, levei-o abraçada no colo para casa.
Deixei-o em segurança e saí pela vizinhança para descobrir quem era o dono. Achei que fosse dos moradores do prédio ao lado, mas não era.
O desespero foi crescendo junto com uma sensação amorosa por ter acolhido aquela criatura.
Ele gostou do meu quintal. Correu por todo lado, subiu no barranco, derrubou o vaso de manjericão e…
Fui firme e disse:
— Se você comer meus passarinhos, vai se ver comigo.
Ele escutou atento, olhando nos meus olhos e abanando o rabinho.
Comecei a ficar preocupada porque não demorou muito para meu coração entrar naquele compasso harmonioso que acontece quando a gente está apaixonada por alguém.
Esperei a vizinhança acordar e, às dez horas, saí com ele para procurar o dono.
Improvisei uma coleira com meu extensor de yoga e fomos passear pelas redondezas.
— Você conhece esse cãozinho? — eu perguntava.
— Não conheço, mas ele é bonitinho.
Viramos a esquina e encontramos três moradores conversando. Logo nos juntamos numa pequena força-tarefa para descobrir de quem era o cãozinho.
Alguém sugeriu que fosse do homem da esquina, aquele da casa antiga com a garagem cheia de quinquilharias. Fui até lá. O homem não estava, mas bastou olhar para concluir que aquele cãozinho não morava ali. A energia dele era boa demais para ter vindo de um lugar tão bagunçado.
Voltei e Neusa resolveu se juntar à busca. Na verdade, ela queria o cãozinho. Ela foi amorosamente insistente:
— Se a gente não achar o dono, eu quero ele.
E foi aí que comecei a cogitar ficar com a criatura que havia me encontrado.
Já fazia mentalmente a lista de compras para acomodar a nova pessoa da casa. Pensei nos meus passarinhos, nos meus futuros voos e, com o coração apertadinho, concluí:
— Tudo bem. Se não encontrarmos o dono, pode ficar com ele.
Subimos mais um quarteirão.
Na esquina, havia um homem segurando uma mangueira.
Perguntei:
— Você conhece esse cãozinho?
— Acho que é da senhora que mora no quarteirão de cima, numa casa amarela com grades amarelas.
Enquanto ele explicava, o dono apareceu. Saiu da casa da esquina e veio, feliz da vida, abraçar o pequeno Fred.
E assim a história chegou ao fim.
Ou talvez não.
Porque essa história tem muitas camadas de simbolismos e sincronicidades.
O fato que mais me chamou a atenção foi o de que o Fred chegou exatamente no momento em que eu estava chegando em casa. Ele poderia ter batido em qualquer portão. Eu poderia ter me atrasado alguns minutos.
Mas não.
Ele apareceu no instante exato e correu para os braços da pessoa que o levaria de volta ao seu dono.
Como relatei anteriormente, se tivesse entrado na casa da Neusa, Fred provavelmente já teria outra família.
As histórias que Fred, o cãozinho, trouxe consigo
Rupert Sheldrake e os campos mórficos
Enquanto revivia a cena, lembrei-me de Rupert Sheldrake e de suas pesquisas sobre fenômenos que desafiam nossas explicações habituais. Ele escreveu sobre a estranha sensação de estar sendo observado e sobre cães que parecem saber, com impressionante precisão, quando seus donos estão chegando em casa.
Talvez exista uma explicação. Talvez não.
Mas, naquela manhã, tive a nítida impressão de que Fred já estava ali, à minha espera, como se soubesse exatamente a hora em que eu abriria o portão para levá-lo de volta para casa, para os braços de seu verdadeiro dono.
Mahabharata e Yudhishthira
A história de Fred também me fez lembrar de uma antiga narrativa do Mahabharata. Conta-se que Yudhishthira, após uma longa jornada, chegou aos portões do céu acompanhado por um cachorro que o havia seguido fielmente pelo caminho. Ao ser informado de que poderia entrar, mas que o cão deveria permanecer do lado de fora, recusou-se a prosseguir. Disse que não abandonaria aquele companheiro que havia caminhado ao seu lado até o fim.
Somente então revelou-se que o cachorro era uma manifestação divina, e sua fidelidade e compaixão foram reconhecidas como dignas do próprio céu.
Gosto dessa história porque ela nos lembra que a grandeza de uma alma talvez não esteja apenas nas conquistas que alcança, mas também na forma como trata aqueles que cruzam o seu caminho. Mesmo quando chegam de repente, com quatro patas, um rabo abanando e a misteriosa capacidade de invadir não apenas quintais, mas corações.
Escrevo para que a vida não passe em silêncio e para que eu não me esqueça de sempre olhar essas pequenas histórias que me ensinam o que realmente importa.
Silvia Sant'Ana


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