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O caminho criativo e a arte de transformar um sofá em espaço de criação

Link para o Vídeo no final da página.
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Página matinal para nutrir a alma


26 de fevereiro de 2026

Silvia Soares Sant'Ana


Eu gosto de limpar o quintal antes de transformá-lo no meu ambiente criativo de escrita.

O jardim — o quintal — é como a mente: um lugar de enraizamento, plantio de sementes, cultivo, florescimento e colheita. Tudo o que habita o jardim habita também a mente.


Quando o quintal está muito bagunçado, com acúmulo de folhas, entulhos e frutos secos que já cumpriram sua missão, minha mente fica confusa diante desse espelho. Essa matéria orgânica já deveria ter sido enterrada, transformada em húmus, em adubo.

No processo criativo não é diferente.


Quando há excesso de informações, mente agitada, muitas tarefas disputando atenção, pensamentos negativos ou emoções que já deveriam ter sido enterradas e esquecidas, a fluidez se perde. A escrita até começa — se é que começa —, mas logo para. Algo bloqueia.


Então dizemos: estou bloqueada.


Mas não é mágica.


Quando limpamos o ambiente externo e o interno — a mente — é bem provável que o vento da inspiração, o espírito, encontre passagem e realize a mudança necessária. Como uma borboleta que chega de mansinho para polinizar uma flor.

Os ventos que nos inspiram, assim como os aliados que nos nutrem e incentivam, vêm de lugares distantes e inimagináveis. Nossa oferenda também pode voar longe, atravessar oceanos, sem esforço excessivo nem metas idealizadas que só alimentam um ego vaidoso e controlador.


Permitir que o vento, os aliados e as surpresas cheguem é um exercício de soltar expectativas.


É deixar ir o que deve ir e transformar em adubo o que já não nutre.


Ou ainda: ressignificar. Reformar. Dar nova função ao que perdeu seu propósito original.

Por exemplo: em vez de queimar o sofá, por que não transformá-lo em um playground ou em um espaço para exercícios funcionais?


Ali podemos levar nosso caderno, livros, canetinhas, crochê, linhas, lápis de cor. Podemos criar, sonhar uma nova viagem, imaginar uma ação, planejar uma receita, escrever uma carta para nós mesmos — e depois colocá-la nos correios, endereçada a nós.


Eu sei o que você pode pensar: é desconfortável, estranho escrever ou pintar no sofá.

Entendo.


Mas avalie comigo: estamos apenas tentando ancorar o corpo em um espaço que antes era nocivo e agora pode se tornar criativo, de um jeito diferente. Então, quando você olhar para seu lindo sofá de couro azul, ele pode ganhar outro nome:


  • sofá da minha criança artista

  • sofá do arco-íris

  • sofá da criação sem limites

  • sofá alquímico


Assim como o céu azul — vasto e possível.


Percebe onde quero chegar?

Talvez esse seja um jeito de evitar o corpo de bombeiros na porta de casa ou a chegada de um centro psiquiátrico, prontos para nos internar por acharem que enlouquecemos — quando, na verdade, estamos praticando o primeiro ato de lucidez: querer queimar o sofá.


Mas quem chamaria isso de lucidez?


Talvez só o Chapeleiro Maluco. Afinal, Johnny Depp é só ficção, não é?


Há ainda outra possibilidade: aplicativos de exercícios funcionais que usam o sofá como apoio. Assim, de Darth Vader, ele pode se transformar no Mestre Yoda.

Parece simples — e é complexo.


Mas talvez só pareça impossível porque, antes de acontecer, tudo o que é possível ainda não tem forma.


Para finalizar, lembro uma frase do Chapeleiro Maluco para Alice:

“Impossível é só aquilo que você acredita que seja.”

E não se esqueça: limpar o jardim externo e o jardim interno — a mente — que muitas vezes mente sobre quem realmente somos.


A alquimia de não queimar o sofá


Quando uma mulher decide não queimar o sofá, mas transformá-lo, ela escolhe a alquimia em vez da destruição. Isso é maturidade da alma.

Nesse sentido, o sofá não é apenas um móvel.


Ele pode representar o lugar onde, muitas vezes, fomos ensinadas a adormecer a nós mesmas. Quando o reconfiguramos como espaço de criação, algo muda profundamente: retiramos o feitiço.


Há uma sabedoria antiga nisso:


aquilo que não é enterrado vira assombração;

aquilo que é enterrado vira adubo.


O bloqueio criativo, muitas vezes, não é falta de ideias.É excesso de restos emocionais que ainda não foram metabolizados. E talvez haja também uma iniciação nesse processo.

“A mulher que consegue rir enquanto atravessa o limiar não enlouquece — ela inicia.”

No fundo, este texto fala de três movimentos muito simples:


  • uma mulher em conversa com sua criança criadora;

  • uma alma que entende que criar exige espaço físico, psíquico e simbólico;

  • um gesto cotidiano que se transforma em ritual de proteção da vida criativa.


E talvez o mais importante seja isto:

Quando uma mulher limpa sua casa para que a alma volte a escrever,ela está dizendo à Vida:há lugar para você aqui.

Uma pergunta para você

Existe algum objeto ou espaço na sua casa que poderia se transformar em um lugar de criação?

Talvez uma mesa, uma cadeira… ou até um sofá.


Nota

Este texto também deu origem a um episódio do podcast da série Caminho Criativo, inspirado nas páginas matinais do livro O Caminho do Artista.


👉 Assista ao vídeo completo no canal.



 
 
 

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