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Por que queimar o sofá funciona

Atualizado: 59false57 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)

Queimar o sofá.


O ato mais criativo da sua vida pode ser queimar o sofá.
Chris Orwig - A Luta Criativa

"Estou no mundo apenas pelo propósito de compor."
Franz Schubert - O caminho do artista
“O ikigai está escondido em nós, e é necessária uma investigação paciente para chegar até o mais profundo de nosso ser e encontrá-lo. O ikigai é a razão pela qual nos levantamos pela manhã.”  
Héctor García e Francesc Miralles - Ikigai

O que nos move a queimar o sofá.

A verdade é que o que nos move é o propósito. Sem esse motivo — aquele pelo qual faríamos sacrifícios reais — mal conseguiríamos levantar da cama.


Investigar quem somos, descobrir o nosso propósito e viver em direção a ele não é simples. É uma tarefa árdua, cotidiana, sem atalhos. Este texto atravessa alguns eixos essenciais dessa jornada:


  • Propósito como força vertical;

  • Horizontalidade, conforto e anestesia;

  • A coragem de atravessar e queimar o sofá;

  • O sonho como destino e criação;

  • Sistema nervoso e qualidade dos vínculos;

  • Relações como base do propósito;

  • Verticalidade compartilhada.



A sedução da horizontalidade

O corpo ama a horizontalidade. Ela é econômica, silenciosa, quase sedutora. Deitar exige pouco; permanecer, nada. O sofá sabe disso. Ele nos chama com uma intimidade perigosa, oferecendo descanso quando, na verdade, oferece adiamento — um prazer barato que nos mantém imóveis enquanto a vida passa em pé.


Levantar da cama, convenhamos, não é um gesto trivial. Desafia a gravidade, o cansaço existencial e, sobretudo, a ausência de sentido. Porque, sem propósito, o corpo pesa. Pesa tanto que qualquer superfície confortável vira armadilha. O sofá, então, cumpre seu papel com excelência.


Propósito como força vertical

O que nos faz levantar não é a disciplina. É o propósito.


Ele funciona como um portal invisível que nos puxa para fora da horizontalidade confortável e nos coloca na vertical do mundo. Mas, antes de seguir, há uma pergunta que precisa ser enfrentada — e ela não é leve: quem sou eu?


Responder a isso exige coragem hercúlea. Exige quebrar hábitos, transcender regras e, em alguns casos, queimar o sofá.



Queimar o sofá

Sim, queimar o sofá.


Porque, quando ele vira cinza, algo curioso acontece: surgem possibilidades. As mesmas que estavam ali o tempo todo, escondidas atrás do conforto.


Atravessar a calçada e começar a correr. Atravessar a preguiça e cozinhar o próprio alimento. Atravessar a mente e silenciar notificações. Atravessar o orgulho e ligar para um amigo distante apenas para dizer: eu te amo, estou com saudades, preciso do seu abraço.

Queimar o sofá é atravessar.


É deixar tarefas intermináveis de lado para ler, escrever, estudar, meditar, contemplar, imaginar, sonhar. Porque sonhar não é fuga — é destino.



Sonho, vínculos e sistema nervoso

Uma vida longa, saudável e vibrante precisa de um propósito bonito. Um propósito auspicioso, divertido, coletivo. Que inclua o planeta e todos os seres, com ahimsa, compaixão e alegria.


Mas propósito não se sustenta sozinho. Ele precisa de base. E a base, quase sempre, são pessoas.


Mas não qualquer pessoa.


Aqui cabe um aviso importante: nem toda pessoa simpática é aliada. O jogo de palavras é proposital, mas o alerta é sério. Existem pessoas que despertam o nosso melhor — e outras que ativam, com precisão cirúrgica, a nossa pior versão. Aquela que estávamos tentando curar, educar, transformar em cinza.


Essas pessoas “simpáticas” ativam o sistema nervoso simpático: deixam o corpo em alerta, a mente confusa, o coração defensivo. Pessoas são ambientes. E alguns ambientes nos impedem de relaxar, criar, brincar, ser autênticos — e seguir com o nosso propósito.


Como disse Bruce Lipton: “É o ambiente sua besta.”


Amigos parassimpáticos e verticalidade compartilhada

Por sorte, existem os amigos parassimpáticos.


Aqueles que nos regulam. Que nos oferecem segurança emocional. Que nos ajudam a respirar fundo, sorrir de verdade e lembrar por que vale a pena levantar da cama. São companheiros de jornada e de barraca — gente que sustenta o nosso propósito quando o mundo está em caos.


Com eles, o sofá perde o sentido. E perde a força.


Porque o chão vira solo fértil. E a verticalidade deixa de ser esforço — vira escolha.


Epílogo

A verticalidade, então, já não é heroísmo nem imposição. Ela se torna um gesto íntimo, quase devocional. Um levantar-se diário feito de pequenas decisões: presença no que precisa ser feito, pausas honestas para descansar, olho no olho, cuidado consigo.


Porque sem esse cuidado, falta corpo para sustentar o sonho. Falta fôlego para olhar com atenção e serenidade para o próprio propósito — esse que exige foco, mas também rede; disciplina, mas também colo; verdade, mas também afeto.


No fim das contas, ninguém queima o sofá sozinho. A gente queima quando encontra mãos que seguram, olhares que não desviam e vínculos que não anestesiam.


E você — depois de ler este texto — sentiu vontade de queimar o sofá?


Compartilhe nos comentários o que esse texto despertou em você:

ideias, provocações, incômodos ou desejos de atravessar.


Silvia S Sant'Ana


 
 
 

1 comentário


Sim, uma queima moral com nós mesmo para alcançar algo virtuoso e ético em frequência com nossos entes parasimpáticos...

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© 2022 Sívia Sant'Ana

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