O Melhor Remédio - A história de José Pereira, 96 anos
Atualizado: 12 de ago.

E o ikigai que sustenta uma vida inteira
Quando histórias viram remédio
Queridos leitores, Algumas histórias chegam como quem acende uma luz. Histórias não são apenas narrativas. São bússolas. São remédios. Pequenas lanternas que acendem quando o tempo escurece. Elas reacendem partes nossas que estavam esquecidas, silenciosas, desanimadas. E quem já sentiu o poder transformador de uma boa história sabe: elas nos devolvem ao eixo.
Hoje, quero compartilhar uma dessas histórias — surpreendente, quase mágica. Uma história que parece ter encontrado o Santo Graal da longevidade. Não em Okinawa, nem em Nicoya, mas aqui, pertinho de nós, no bairro Santa Mônica. Ali vive um pequeno ponto azul. Ali vive seu José Pereira.

Um encontro que muda o ritmo
Eu voltava de uma corrida no Parque do Sabiá. Mais lenta do que de costume, acompanhada por uma dor que insistia em caminhar ao meu lado. Foi então que o vi: um senhor de quase cem anos fazendo exercícios nas barras da academia ao ar livre. Movimentos firmes, surpreendentes, quase acrobáticos.
Me aproximei e perguntei:
“Já completou cem anos?” “Não. Faltam quatro.”
Noventa e seis anos. E uma vitalidade que parecia zombar do tempo.
A simplicidade que sustenta uma vida inteira
Curiosa como sempre, perguntei sobre sua alimentação. Ele respondeu com uma delicadeza que me encantou:
“Tem coisas que eu posso comer.”
Nada de restrições dramáticas. Apenas possibilidades. Ele passa café preto sem açúcar pela manhã. Faz o próprio almoço. À tarde, prepara uma “merenda” — palavra que tem cheiro de infância. Come frutas, banana, mamão. À noite, prepara o jantar entre seis e sete. Mora sozinho. Caminha longas distâncias pelo bairro. Vai ao sacolão. Visita a companheira que adoeceu e hoje vive com as filhas. Leva suprimentos, afeto, presença. Cuida como pode. E quando os médicos perguntam sobre alergias a remédios, ele responde:
“Vou ficar te devendo… porque não tomo nenhum.”
A oficina onde o tempo não pesa
Seu José é marceneiro. Faz carrinhos, carroças, canhões, brinquedos, caixinhas. Uma delas, fechada como uma casa sem janelas. Outra, aberta, pronta para presentear alguém. Ele me disse:
“Você faz uma caixinha hoje. Amanhã quer fazer outra melhor.”
A marcenaria é seu ikigai. A arte que o mantém vivo, curioso, ativo. A arte que o convida a melhorar um pouquinho todos os dias — como a escrita faz comigo.
Ao entrar na casa dele, percebi sinais de cuidado: calçada limpa, árvore podada, louça brilhando. Pessoas que cuidam da própria calçada geralmente ainda cuidam da própria vida.
O segredo inesperado
Eu achava que o segredo da longevidade dele era a madeira. Mas havia mais. Muito mais. Ele dança forró. Simples assim. Ele pesca. Planta. Caminha. Cria. Conversa. Distribui bom humor como quem distribui vitamina. A vida dele não gira em torno da sobrevivência — gira em torno dos afetos.
Pequenas coisas que tecem uma vida
As avencas da companheira ainda estão lá. A serra fica desligada quando os netos aparecem. A carrocinha de madeira o acompanha nos finais de semana no rancho. Ele cuida da terra. Ele cuida das pessoas. Ele cuida do mundo ao redor.
E quando perguntei se guardava mágoas, ele respondeu:
“Todo mundo é amigo.”
Aos 96 anos, ele continua leve. E talvez seja isso que o mantém em movimento: não só saúde, não só genética, não só alimentação. É o movimento. É a criação. É a curiosidade. É a autonomia. É a dança. É o trabalho das mãos. É a terra. É a conversa. É ter alguém para visitar. É ter um lugar para ir. É ter algo para criar.
É o fato de que amanhã ainda existe alguma coisa bonita para fazer.

Apenas em meio à atividade desejarás viver cem anos.
Provérbio Japonês
Confira a história completa aqui nesse Epsódio do StorieCast



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