Aprender a cantar é aprender a escutar
Atualizado: há 2 dias

Newsletter — Edição 2 — 12/10/2026
Ao estudar Romaria, descobri novos caminhos numa canção que eu pensava conhecer. Convido você a fazer uma pausa comigo e escutar o que existe entre as palavras, a música e o silêncio.
Entre a poeira da estrada, a inspiração e o aprendizado da escuta.“É de sonho e de pó / O destino de um só.”
Há músicas que conhecemos há tanto tempo que acreditamos já ter escutado tudo o que elas têm a dizer. Até que um dia fazemos uma pausa //// semibreve — um compasso inteiro em silêncio — e nos demoramos diante de uma palavra. Então, a canção inteira se revela em outro tom para nós.
Foi o que aconteceu comigo ao começar a estudar Romaria, de Renato Teixeira.
Encontrar minha própria voz
Minha professora de Canto, Fabiana Moura, do Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Capparelli, escolheu essa canção para eu estudar neste último trimestre. Achei linda. E desafiadora.
Pelo que ela representa, pelo que toca em nosso íntimo e pela dificuldade de encontrar minha própria voz numa música tão marcada pela interpretação da imortal Elis Regina, também cantada por sua filha, Maria Rita.
Fabiana sempre nos lembra que cantar pede estudo: conhecer o compositor, o contexto, as palavras e aquilo que desejamos expressar por meio delas. Isso faz muito sentido para mim e ressoa com minha voz de filósofa, com a curiosidade que me leva a querer compreender o que me toca.
Então fui pesquisar. E, entre entrevistas e novas escutas, descobri que havia muito mais nessa canção do que eu costumava perceber.
Eu a ouvia, mas nunca tinha parado para escutá-la de verdade. Foi nessa pausa, semibreviando*, que percebi a diferença: o som já me era familiar; agora, eu me abria ao que a canção tinha a dizer.
A sol ou a sós?
Comecei por uma dúvida: a sol ou a só?
Na letra, encontramos “vida cumprida a sol”. Mas meu ouvido também percebe a solidão. Talvez o “destino de um só”, anunciado no início, prepare essa outra escuta. A palavra que ouvimos encontra as palavras que vieram antes — e também aquilo que carregamos dentro de nós.
Talvez, sem um momento de silêncio, a gente acabe escutando sobretudo o que já traz consigo. Um compasso inteiro de pausa pode abrir espaço para perceber algo além.
A vida cumprida sob o sol. A vida atravessada a sós.
Duas imagens que, para mim, podem habitar a mesma estrada.
Romaria ganhou o país na voz de Elis Regina, em 1977. Nela, o universo caipira encontra uma expressão de fé que atravessa gerações: alguém marcado pelas dificuldades da vida se dirige a Nossa Senhora Aparecida em busca de amparo.
O sonho e a poeira.
O cavalo e os pensamentos.
Os laços e os nós.
O amargor do jiló.
Poucas palavras, tantas imagens.
Descobri também que Renato estava lendo poesia concreta, especialmente Décio Pignatari, quando criou a canção. Essa influência aparece na maneira como trabalha as palavras e aproxima seus sentidos.
A própria linguagem participa da experiência: enlaça, interrompe, aproxima, deixa espaços para quem escuta.
E eu me vejo ali: diante de uma estrada, ruminando pensamentos, sentindo o amargo de algumas experiências e procurando uma luz para aquilo que ainda está escuro em mim.
Dar passagem à inspiração
Outra passagem da entrevista a que assisti me tocou especialmente. Ao falar da inspiração, Renato sugere que alguém teria colocado a mão sobre sua cabeça.
Achei bonita essa imagem.
Muitos artistas descrevem a criação como a chegada de algo que não conseguem explicar inteiramente. Uma ideia, uma melodia, uma frase que parece pedir passagem.
Na tradição grega, as musas personificavam a inspiração e estavam associadas a diferentes artes e formas de conhecimento.
Essa relação entre criação e espiritualidade também atravessa O Caminho do Artista, de Julia Cameron.
Para a autora, nossos sonhos e anseios criativos vêm de uma fonte divina; abrir espaço para a criatividade é também abrir-se à força criadora que habita em nós.
Ao ouvir Renato falar "daquela mão sobre sua cabeça", lembrei dessa leitura. Há algo nessa imagem que me toca: a possibilidade de receber uma inspiração e, com estudo, presença e dedicação, dar forma ao que pede passagem.
Quando escutamos as palavras
Esse aprendizado vale mesmo para quem não pretende cantar.
Conhecer uma palavra, perceber uma pausa, prestar atenção à relação entre letra e melodia pode transformar nossa experiência de escuta. Às vezes, descobrimos uma delicadeza que havia passado despercebida. Em outras, encontramos algo que nos inquieta.
Penso, por exemplo, em Como Eu Quero, do Kid Abelha, composta por Paula Toller e Leoni.
Uma melodia familiar pode nos levar a cantar automaticamente, sem reparar no que estamos dizendo. Mas, quando escuto com atenção o trecho em que a voz da canção afirma seu domínio sobre o outro e promete ensiná-lo a ser melhor, percebo uma ideia de amor atravessada pelo controle. Porque... "eu quero você como eu quero." Percebe?
O que muda quando deixamos de apenas acompanhar a melodia e começamos a escutar também as palavras?
Perceber suas ambiguidades. Rever nossa própria escuta é um caminho que cada um percorre a sós.
Encontrar o tom e o sentido
A música nos alcança pelo som, pelo ritmo, pelas lembranças e pelos sentidos.
Pode nos comover antes mesmo que saibamos explicar por quê.
Talvez por isso eu esteja descobrindo que aprender a cantar envolve também aprender a prestar atenção.
À palavra. À respiração. À história de quem compôs. E àquilo que se move em mim enquanto canto e escuto
Comecei esse estudo querendo encontrar o tom.
Estou descobrindo que preciso encontrar também o sentido.
E você: qual canção ganhou outro significado quando parou para escutar suas palavras?
Se sentir vontade de dividir essa descoberta comigo, deixe um comentário. Vou gostar de conhecer a sua escuta.
Semibreviando…
Uma palavra que inventei, inspirada na pausa de semibreve.
Na escrita musical, assim como as notas têm diferentes durações, os silêncios também têm seus tempos. Em um compasso 4/4, a pausa de semibreve corresponde a quatro tempos de silêncio.
Mas o silêncio não é ausência de música. Ele também faz parte dela.
E foi assim que nasceu o meu semibreviando: uma pausa, uma respiração, um instante para sentir, escutar o silêncio e perceber o que acontece entre uma nota e outra.
Porque, às vezes, é preciso silenciar para continuar.
Na música, na escuta, na vida…
Semibreviando: a arte de habitar a pausa sem perder o ritmo da existência. 🎶✨
Até a próxima página,
Silvia Sant’Ana
Filósofa e eterna aprendiz




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