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A fotografia me chama e eu preciso revelar

há 2 dias
5 min de leitura


Mais uma semana começa com muitas urgências.

Talvez você aí esteja se perguntando: com uma demanda atrás da outra, será que conseguirei encontrar um tempo só meu?


Um tempinho, por menor e mais curto que seja. Quinze minutos por dia — ou mesmo durante a semana inteira — para tentar ouvir alguma coisa que vem de dentro. Um chamado que, no meio de tantas urgências, pode nos lembrar do que realmente importa.


Esta newsletter é sobre fotografia, chamado e revelação. E, claro, sobre o que realmente importa...

Porque algumas coisas importam profundamente. Mas nem sempre fazem barulho para chamar nossa atenção. Às vezes, é no silêncio que se revelam. E aí está o paradoxo: tanto o barulho quanto o silêncio podem nos despertar para um chamado.


Quando a fotografia chama

Há algum tempo venho pensando sobre o chamado de alma. Durante muitos anos, quando ouvia essa expressão, achava que o chamado era para qualquer pessoa, menos para mim.


Parecia uma coisa grandiosa, destinada a pessoas extraordinárias, com talentos excepcionais e alguma missão importante a cumprir.


Até perceber que talvez o chamado não seja tão extraordinário assim. Talvez esteja naquilo que fazemos com alegria gratuita, naquilo que nos envolve por horas sem percebermos o tempo passar. Algo que continua fazendo sentido mesmo quando ninguém está olhando ou aprovando.


Gosto de escrever. Sempre gostei.


Comecei pelas cartas de amor ridículas — porque as cartas de amor são mesmo ridículas. Depois vieram os diários com cadeados, a escrita acadêmica e, mais recentemente, as páginas matinais, uma prática proposta por Julia Cameron no livro O Caminho do Artista.


Escrever tornou-se um exercício de escuta. Uma maneira de me aproximar de alguma coisa que ainda não sei nomear.


Mas existe outra forma de escrita que me acompanha há muitos anos.
A fotografia.

No meu livro Ciclo, trago algumas reflexões sobre a arte de fotografar. Gosto de pensar que a fotografia é uma escrita que nasce do olhar. A própria origem da palavra sugere essa aproximação: luz e escrita.


Fotografar é escrever com a luz.


E talvez seja também uma maneira de escrever aquilo que ainda não conseguimos dizer com palavras.


Uma viagem que começou com um sonho

Recentemente, fiz um curso de astrofotografia. Algo que nunca imaginei fazer.


Curiosamente, essa viagem começou com um sonho. Depois vieram sinais, sincronicidades, livros e acontecimentos que pareciam conversar entre si.


Não sei explicar exatamente como essas coisas se conectaram. Sei apenas que comecei a prestar atenção.


E, quanto mais observava, mais sentia vontade de seguir aquele chamado.

Foi assim que me vi diante de um céu estrelado, tentando fotografar a Via Láctea.


Pense bem: uma mulher que passou tantos anos fotografando paisagens, flores, pássaros e pequenos acontecimentos da vida cotidiana no seu próprio quintal estava agora aprendendo a fotografar uma galáxia. A experiência ampliou meu olhar para dimensões que eu mal conseguia imaginar.


Mas o mais curioso aconteceu depois, quando voltei para casa.


Em vez de continuar olhando apenas para o céu, senti vontade de voltar às fotografias que havia feito em algumas viagens.


Os horizontes de fora que habitam dentro de mim

Comecei, de maneira bastante intuitiva, a revisitar meus arquivos de fotografias de viagem.


No ano passado, 2025, realizei um trabalho muito bonito para mim: as fotos postais-oráculos. Você pode conhecê-las no link que acompanha este texto.


Naquele trabalho, reuni fotografias do meu quintal: pássaros, flores, a jabuticabeira. Foi uma experiência rica e profunda, nascida daquilo que estava perto, ao alcance dos meus olhos, mas que ainda tinha tanto a revelar.


Agora, o chamado veio de outro lugar.

Senti vontade de revisitar as fotografias dos lugares por onde meu olhar pousou.


Os horizontes de fora que habitam dentro de mim.


Abri os arquivos e comecei uma viagem de volta para casa: minhas histórias, minhas memórias, as pessoas e os lugares que participaram da construção de quem sou hoje.


E que, de algum modo, continuam participando da mulher anciã que desejo me tornar.


É curioso o que acontece quando volto a essas imagens.


Reconheço uma paisagem, lembro de alguém, reencontro um detalhe que havia esquecido.


Às vezes, a fotografia me conta alguma coisa que eu não tinha conseguido perceber quando estive ali.


E fico pensando: o que mudou? A fotografia continua a mesma. O instante permanece guardado naquele enquadramento.


Mas eu já não sou a mesma pessoa que apertou o botão da câmera.


Talvez seja por isso que algumas fotografias precisem de tempo para revelar aquilo que guardam e nos convidar a uma nova narrativa.


O tempo também revela

Há algo de misterioso nessa experiência de voltar às fotografias.

Quando fotografamos, escolhemos um fragmento do mundo. Um instante, uma luz, uma paisagem, um rosto. Fazemos um enquadramento e, de algum modo, dizemos: quero guardar isso.


Mas nem sempre sabemos exatamente o que estamos guardando.


Uma fotografia pode permanecer anos esquecida num álbum, numa caixa ou num arquivo digital. Até que, um dia, voltamos a ela e descobrimos alguma coisa que antes não conseguíamos enxergar.


Talvez um detalhe. Uma presença. Uma ausência. Um carrossel. 

Ou uma versão de nós mesmos que já não existe da mesma maneira.


E então aquela imagem, aparentemente imóvel, começa a contar outra história.


Gosto de pensar que a fotografia não guarda apenas o que vimos. Guarda também aquilo que ainda poderemos descobrir sobre o que vivemos e o que ainda iremos viver.

Por isso, revisitar meus arquivos tem sido mais do que organizar imagens de viagem.


É reencontrar experiências, afetos, escolhas e sonhos que continuam habitando minha memória.


Alguns desses lugares talvez eu nunca mais visite. Outros permanecem tão vivos dentro de mim que basta abrir uma fotografia para sentir que estou novamente ali.


E há ainda aqueles que parecem me convidar a uma nova viagem.


Quanto mais fora, mais dentro

Tenho percebido que aceitar esse chamado de voltar às fotografias está me revelando a mim mesma.


A cada álbum que revisito, sinto que aquilo que antes parecia apenas uma viagem ao mundo exterior começa a se transformar num itinerário interno.


Quanto mais fora, mais dentro.


Talvez esse novo lugar que estou descobrindo não seja exatamente novo. Talvez estivesse aqui o tempo todo, esperando que meu olhar amadurecesse o suficiente para reconhecê-lo.


Não sei ao certo.


Mas gosto dessa possibilidade.


A fotografia me chama, e eu preciso revelar.


E quando o mapa estiver completo, a vida tratará de mostrar, chamar, convidar...


A semana continua aqui, com suas demandas e seus trabalhos. Ainda há muito para fazer.


Mas, antes de atender a tantas urgências, escolhi deixar o olhar pousar um pouco sobre minhas fotografias.


Hoje, foi assim que encontrei um tempo só meu para ouvir o chamado e continuar revelando, dentro de mim, a fotografia do meu destino.

Obrigada por chegar até aqui e compartilhar comigo esse tempo de leitura. 
Se alguma passagem fez sentido para você, despertou uma lembrança ou trouxe uma nova reflexão, vou adorar saber. Deixe seu comentário. Quem sabe a sua experiência também não abre uma nova janela para o nosso olhar?
Até a próxima leitura! 

 

 
 
 

2 comentários


Que delícia de texto. Me identifiquei em vários momentos porque a fotografia tem o poder de me transportar para lugares e vivências de forma intensa. Continue com a fotografia e com a escrita, Sílvia. A gente agradece.

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ciclopoetica
há 5 horas
Respondendo a

Agradeço seu comentário, Maria Joana. Sei que você gosta de fotografia e de escrever, e é exatamente como você disse: a fotografia transporta. Estamos vivendo um momento em que precisamos desses instantes que nos levam a uma dimensão de beleza, a um lugar gentil. Um beijo.

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© 2022 Sívia Sant'Ana

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