A cama tem seus argumentos. A escrita também.

Newsletter — Edição 1 - 05/10/2026
Olá, que bom ter você por aqui.
Esta newsletter nasceu de uma prática que venho cultivando há mais de um ano: minhas páginas matinais. Escrever logo ao despertar tem sido um exercício de presença, um espaço de escuta e um caminho de autoconhecimento que me surpreende diariamente.
É ali, entre o silêncio da casa e o canto dos pássaros, que encontro memórias, intuições e pequenas revelações que me ajudam a compreender minha própria jornada.
Decidi transformar essa prática em partilha.Aqui, você vai encontrar fragmentos dessas manhãs — quem sabe até um cheirinho de café —, pensamentos, reflexões e fotografias. Aquilo que nasce quando me permito escrever antes de saber o que escrever.
Para este primeiro encontro, escolhi uma página que nasceu nesta segunda-feira chuvosa, entre os argumentos da cama e os chamados do caderno.
Puxe uma cadeira. O café está servido.

Página matinal — 5 de outubro de 2026
Escrever é uma forma de oração, lembra?. Essa foi a frase que ouvi e que minha pequena Silvia escreveu.
Julia Cameron afirma explicitamente que as páginas matinais são uma forma de oração porque nos abrem para receber orientação e nos prepara para a conexão com aquilo que chama de nosso eu superior.
O Caminho do ArtistaA manhã está bastante atípica, porém muito agradável. Uma chuva fina molha as plantas e a grama do quintal. Cada pedacinho de terra agradece, e as flores que estavam prestes a se abrir florescem.
É segunda-feira. Um bom dia para começar escrevendo, porque todo começo, todo novo começo, deve ser reescrito como um ato de oração.
As semanas passam, os anos passam, e mal percebemos que vamos repetindo as mesmas ações, enquanto esperamos uma nova vida, um novo começo, um novo emprego, uma motivação renovada. Um propósito que nos tire do pior mal que pode nos acometer numa segunda-feira chuvosa: o tédio.
A cama, nessas horas, tem seus argumentos.
“Ah, hoje vou ficar um pouquinho mais.”
Quando não podemos ficar, levantamos pesarosos, procurando uma justificativa: “Bem que eu merecia ficar na cama curtindo essa chuvinha”.
Começar não é um empreendimento fácil.
Talvez a dificuldade de começar na segunda-feira exista porque o começo da semana é mesmo no domingo, dia que escolhemos para descansar, nos acomodar e curtir o sofá. Como forma de nos dar permissão, dizemos: “Eu mereço”.
Escrevendo isso, estou apenas refletindo sobre como a escrita é uma forma de oração e como ela pode nos abrir os olhos para o que nós mesmos estamos fazendo: perceber quando o descanso nos renova e quando o “eu mereço” se torna uma maneira de adiar o começo.
Neste texto, espero, em algum momento, receber inspiração sobre o que devo fazer, em vez de começar com uma agenda toda planejada, controlada, sem saber o que é essencial para minha alma, importante e fundamental para meu corpo e minha saúde, e inegociável para meu propósito: aquilo que mantém minha alegria e meu sentido de vida.
Então, minha escrita vai traçando caminhos, trazendo a esta página informações e lembretes, como se uma parte de mim falasse. Uma parte que eu poderia chamar de Sofia: uma sabedoria interna, esse lado luminoso que nos conduz e nos aguarda num momento de pausa, de escrita, para nos revelar caminhos, trilhas, receitas.
Às vezes, ela nos dita apenas uma palavra:
Comece. Escreva. Vá. Voe. Desapegue.E aqui nosso dever é escrever, sem questionar o que vamos escrever, sem questionar o significado dessa palavra que chega. Simplesmente escrevemos. Simplesmente começamos, sem nada que possa nos tirar desse momento de concentração.
Aqui em casa, passam carros na rua, o motor da geladeira funciona e os pássaros cantam. A manhã tem esses sons. E o canto dos pássaros faz parte das coisas que me alegram e me inspiram neste cenário. Sinto que eles me ajudam a acessar meu daimon e minha Sofia interna.
Se preferir, você pode se sentar, começar a escrever e se conectar com seu anjo ou com algum santo ou santa que lhe traga bênçãos e proteção.
Mas por que escrever em vez de simplesmente orar, fazer uma oração tradicional?
Acredito que o ideal seja fazer os dois: escrever e orar. Orar muito, muito mais do que escrever.
A escrita, porém, antes da oração, é uma oportunidade de imprimir no papel as estratégias que criamos e que nos impedem de começar. Deixá-las registradas para não esquecermos. Porque a gente sempre esquece e, assim, começa repetindo as coisas do mesmo jeito.
Está escrito.
Um exemplo: “Eu protelo; gosto de ficar na cama nas manhãs de segunda-feira”. E tudo bem! Um "tudo bem", como tomada de consciência e não cobrança.
Ou podemos registrar algo para fortalecer nosso propósito e alegrar nossa sabedoria: “Eu faço o que deve ser feito, mesmo nas manhãs chuvosas de segunda-feira”.
Em algum momento, se nos permitirmos estar presentes, em silêncio e em conexão com nosso coração, a escrita nos revela o que de especial, de extraordinário, devemos fazer nesse dia.
E, enquanto escrevo isso, chegam as sugestões extraordinárias:
ligue para sua amiga tal;
mande este texto para aquela pessoa;
faça algo por você que irá ressoar em seu futuro;
compre logo aquele livro de Santa Teresa de Ávila;
mantenha-se firme nos seus estudos;
rascunhe parte do projeto que está em sua mente;
continue trabalhando nas suas fotografias.
Aja.
Volte-se para sua respiração sempre que precisar.
Cante quando se sentir distraída.
Releia este texto no meio do dia.

Por que esta página é uma forma de oração?
Porque nela há presença, há conexão com o Mistério e com o Divino que habita em meu coração. Não basta pedir uma mudança. Preciso também escutar, reconhecer os caminhos e dar os passos para que o novo aconteça. Escrever e orar me ajudam a reconhecer minhas limitações e possibilidades: o que posso fazer e o que preciso entregar.
Nós fazemos o possível. Deus, o impossível. E escrever é uma ação possível, um espaço em que Deus pode se manifestar.Obrigada por dividir esta manhã comigo.
Até a próxima página,
Silvia Sant’Ana





Obrigada por ser inspiração, Sílvia! 📚🎁📔🖊